Assistente editor: Hugo de Aguiar

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Os quatro judiciosos




O Cristão folgazão.
O Ateu fariseu.
O Muçulmano bacanão.
O Judeu plebeu.

O Cristão almejou de repente num sitio nada católico
Como não tinha à mão, nem núncio, nem apostólico
Não recebeu eucaristia nem benção cardinal
Unções necessárias ao trajecto até ao último tribunal.

Durante a viagem celeste sentiu que lhe faziam falta
Parou e sentou-se na sua nuvem alva, na zona do céu mais alta
Rezou e chorou, tanto, tanto e tanto, que de momento adormeceu
Passaram séculos e séculos e ali inamovível permaneceu.

Até que uma nuvem mais escura, que cavalgava um ateu
Chocou com a nuvem clara, que estagnava o inanimado
Este acordou e de repente atarantado, e percebeu
Que rezar e chorar sem estanque, não era perdão contado.

O ateu tinha feito a viagem até ali, num só lanço
Estava com pressa de denunciar, a crença embriagada
Desembaraçado de lamurias, andou leste e sem descanso
E foi então que bateu na branca e ditosa, nuvem parada.

O choque fez estremecer os céus, com rastos de fogo vivo
É Nosso Senhor, diz o Cristão, que me envia um castigo
Não pode ser bom homem, se diz que tem a consciência ligeira
Foi a minha condução agnóstica, que originou a asneira.

Logo vamos arranjar a coisa quando cessarem, os trovões
Descanse, reze ou chore que eu não sou, contra distinções
Quisera mas não pudera como poderia ter dito Tadeu
Que seja cristão respeito, e muçulmano, ou até mesmo judeu.

E os contrários seguiram viagem em nuvens, desniveladas
O alvo voava por cima pois em caso de fortes, trovoadas
O mais escuro o salvaria como se fossem favas contadas
Era o privilégio pensava, das suas crenças oficializadas.

Quando chegaram ao tribunal, as portas estavam cerradas
Não havia alma que viva, salvo duas paixões, estacionadas
Uma longe da outra no parque celeste, muito bem arrumadas
Eram o Muçulmano e o Judeu mudos, surdos e de trombas viradas.

Estavam ali há séculos especados, à espera da abertura
Bateram, tocaram, chamaram, e até tactearam a fechadura
Nâo atendidos, ali ficaram beatos, na esperança da ventura
Que o juiz viesse um dia, julgar os seus com brandura.

Os comparsas mais recentes poisaram as nuvens no meio centro
Um rezava louvores, o outro cantava fado e assim passavam o tempo
Milénios depois ainda lá estavam, com as filosofias usadas pelo vento
Pouco a pouco aproximaram-se, com receio, depois mais a contento.

Foram os quatro bater à porta, com arrojo, tinham perdido o medo
Ninguém respondia de dentro, dialogaram e decidiram assembleia
Fizeram boletins com as penas das asas para votarem, no segredo
Depois do escrutínio decidiriam quem pagaria a ultima ceia.

Votaram todos à unanimidade e declararam, isto é falta de respeito
Como ganhamos todos em aprumo, entre nós nâo mais haverá pleito
O Juiz rompeu o pacto, vamos legislar novos modelos de acção
O primeiro mandamento, é amar o homem com fiel e uno coração.

Os quatro foram para a loja festejar e beber o cálice purgado
Chincaram os copos destemidos e ditaram em conchavo
Agora somos nós que julgamos toda acção ou pecado
Se o antigo aparecer veremos se é culpado.

Assim, com uma alada viagem de xadrez complicado, de quatro tipos almados
Uniram as forças úteis, para resolverem contendas, e qualificar os pecados
O Juiz reformou-se em qualquer planeta triste, para onde fora desterrado
Reza e chora todos os dias para ser bem ajuizado, e dos homens ser perdoado.

Fernando Oliveira

4 comentários:

manuel afonso disse...

Parabéns, é uma obra-prima de muito engenho e criatividade.

fernando oliveira disse...

Manuel, obrigado pela consulta ao blog epelo comentário, efectivamente o exercício é delicado pois é um trabalho triplicado, a compreensão da obra de Miriam aplicada na composição poética em português e francês, quando se faz coisas de que gostamos tudo acontece.

abraços

fernando

Ademar Oliveira de Lima disse...

Estive por aqui aprendendo um pouco sobre a história e as rimas com o seu blog! Abraço Ademar!!!

fernando oliveira disse...

Num texto filosófico-brincalhão, as rimas sã mais fáceis de fazer.

abraços e obrigado Ademar

Fernando